Do XXS ao XXL
Apesar da estréia das balanças nas passarelas, que vetaram modelos anoréxicas nos desfiles, a moda continua cruel com as curvas ou pneuzinhos em excesso. Com um 38 cada vez mais enxuto, muitas mulheres – e meninas – encontram dificuldade para comprar roupas que lhes caiba. Cheguei à Espanha há dois anos acreditando que poderia relaxar com a dieta. Longe da impiedosa areia de Ipanema, pensei que passaria desapercebida perto das peitudas e cheinhas espanholas. Pois me enganei. A globalização havia chegado aos tamanhos e as meninas magérrimas destacavam meus <<michelines>>. Na Zara, de grande só o lucro ou as vendas. A coleção TRF, para jovens, chega a ser uma ofensa de tão pequena. Muitos vezes, tive que abandonar vestidinhos lindos porque o G não fechava o botão.
Outras lojas, no entanto, parecem ter começado a abrir os olhos para o grande mercado que estavam perdendo. Um pouco mais generosa nos tecidos, a magazine sueca H&M dedicou uma área às “gordinhas”. Mesmo distante do que se pode chamar de “trend”, já é alguma coisa ter roupas básicas nos tamanhos 46 ou 54. No mesmo caminho, vai o “El Corte Ingles”, que abriu espaço à Síntesis XXL. A Mango, que sempre fez roupas estilo Twiggy, contratou a modelo Crystal Renn, de tamanho 42/44, para anunciar que alargaria suas coleções até o 46. Há anos no mercado XL de alta costura, a estilista espanhola Elena Miró brilhou na semana de moda italiana “curve-à-porter”.
1 comment Outubro 7, 2007
A grande marcha
Andar, andar até não poder mais. Essa é a proposta da Extra Miles Endurathon, que se realizou esta semana em Barcelona. Trinta participantes – entre atletas e curiosos – iniciaram a marcha ao meio-dia de sábado no Estádio Olímpico do Monjuic. Quatro a terminaram às 3h30 de terça-feira, após 63 horas
de caminhada, 215 Km percorridos e um acordo para dividir o prêmio.
Inspirada no livro “A Grande Marcha”, de Stephen King, a maratona é um exercício de esforço físico e mental. Os participantes devem andar sempre juntos, repetindo um mesmo percurso de 5 km pelo centro da cidade. As paradas para ir ao
banheiro ou alongar os músculos não passam de 5 minutos. Como se fosse pouco marchar sem parar ou dormir, o último a resistir deveria caminhar uma milha mais para levar o prêmio de US$3.500. O segundo colocado abocanhava US$ 1.500 e o terceiro, US$ 500.
Cada participante devia levar sua equipe de apoio para dar-lhe água, comida e o que mais necessitasse. Um brasileiro – o João – decidiu encarar a experiência e eu assumi sua equipe de apoio. A cada 2/3 horas, levava Gatorade, barrinhas de cereais, gel energético, sanduíches e doses extras de café para driblar o sono. Ele sucumbiu depois de mais de 16 horas caminhando, quando seu apoio deixou de ouvir o despertador e o deixou à deriva na madrugada.
A idéia surgiu de um
empresário alemão, Alexander Skora, que depois de ganhar alguns milhões no ramo imobiliário, decidiu repartir pela sociedade e divertir-se um pouco. Sem patrocinadores ou apoio das prefeituras, paga tudo do próprio bolso. Além do prêmio principal, cada milha percorrida pelos participantes é revertida em US$ 1 para uma ONG
escolhida pelos andarilhos.
Estive conversando com Alexander na entrega do prêmio e ele me contou que se formou em Direito, mas estava cansado de estar sempre lidando com energias negativas. “Um advogado trabalha sempre com problemas, ou os ocorridos no passado ou prevendo os futuros incidentes, realizando contratos”,
explicou. Essa não era a dele. Buscava boa energia e compartilhar momentos de felicidade e, por isso, decidiu passar os próximos três anos da sua vida organizando jogos ao redor do mundo. Claro que é mais fácil quando se tem alguns milhões no banco, mas senti uma invejinha do
seu estilo de vida e fiquei pensando como de alguma forma poderia juntar-me ao projeto. Perguntei se não tinhas planos de fazer uma edição no Rio. Ele me contou que sim, que estava previsto para fevereiro do próximo ano, mas teve de adiar porque será papai este mês. Imediatamente, me ofereci para ajudá-lo na organização e ele prontamente aceitou. Pois agora faço parte da organização da marcha carioca, com data e percurso ainda a definir. Podem ir começando a treinar.
Add comment Outubro 3, 2007
Sex – do not disturb

Todo mundo pensa que o ar do Brasil cheira a sexo. Estamos no topo da lista entre os que mais praticam, nossas mulheres são consideradas as mais quentes e até o tamanho dos “artefatos” masculinos supera a média mundial. Mas não precisa ir muito longe para perceber que a realidade é bem diferente da imagem. Nosso lado católico, arraigado em fortes valores de família, nos faz bastante conservadores. Falar de sexo ainda é um grande tabu. Peitinho de fora na novela das sete já ganha tarja preta. Sexo no Big Brother, só debaixo dos cobertores, e mesmo assim, por poucos segundos.
Quando cheguei à Espanha, notei uma gritante diferença. Aqui, o vídeo da Cicarelli <<follando>> na praia foi exbido centenas de vezes, com direito a closes e longos debates se ela tinha gozado uma ou duas vezes. Tudo recheado por piadinhas e comentários ácidos. A televisão – num reflexo da sociedade – discute sexo abertamente, sem rodeios ou meias-palavras. Bem antes da meia-noite, já se pode ver filmes pornôs em canais abertos, acompanhados de chats por sms: “homem busca homem para noite de prazer sem compromisso, ligar para 69696969969″.
E é dentro desse clima de liberalidade que começa esta semana a 15ª edição do Festival Internacional de Cinema Erótico em Barcelona. Entre as atrações estão a gravação de um longa ao vivo, seminários de formação para atrizes e atores pornôs, oficina de gemidos, o heatgay, área só para homosexuais, e a novidade deste ano: uma zona só para mulheres. Já garanti o meu ingresso.
Add comment Outubro 1, 2007
Tolerância zero

As políticas de ordem pública nem sempre vão em favor da sociedade, e muitas vezes chegam a enterrar ícones de uma cidade. Este ano em Barcelona, duas iniciativas de “tolerância zero” geraram protestos por todos os cantos. A primeira frente de ataques foi contra os músicos de ruas, uma tradição local. Além do banquinho e o violão, os artistas devem carregar um certificado de autorização, além de respeitar os horários estabelecidos. Uma contradição à cultura urbana. Em entrevista recente à revista Mondo Sonoro, o músico Manu Chao, arredio a qualquer tipo de convenção, se disse desapontado com Barcelona, cidade onde mora atualmente. Com planos de se mudar para Istambul, criticou a cara-de-pau da prefeitura, que ao mesmo tempo em que usa “o som de Barcelona” com estratégia de marketing para atrair mais turistas, tenta calar os músicos, sufocando-os com normas.

A segunda política contraditória golpeou os ciclistas. Na contramão do lançamento das “bicings“, bicicletas públicas que se espalharam pela Europa, a prefeitura decidiu adotar mão dura contra as infrações de trânsito. Não as cometidas pelos poluentes carros e sim contra os condutores em duas rodas. Entre outras regras, está proibido acorrentar as bicicletas em árvores – pese a ter pouquíssimos pontos de estacionamento na cidade – ou andar em calçadas de menos de 5 metros de largura. Os ciclistas estarão sujeitos a multas de no mínimo 30 euros e já foram às ruas anunciar “que não são o problema do trânsito e sim a solução”. Não foram ouvidos. Semana passada, fui advertida pela Guarda Urbana por andar na ciclovia ouvindo meu Ipod. <<Cidadã, isso é um veículo>>, gritou depois de soar as sirenes.
As fotos deste post fazem parte de um ensaio do fotógrafo João Gaudenzi, publicado na edição deste mês da revista TOP, de Curitiba.
Add comment Setembro 25, 2007
Chuva engarrafada
Aprendemos na escola que a água é “insípida, inodora e incolor”, mas já faz tempo que descobrimos que não é bem assim. Tem água com menos sódio, mais cálcio, menos magnésio, mais salgada, ou mesmo de alta ou baixa montanha. Os restaurantes mais sofisticados já oferecem uma carta de água, semelhante às de vinho. Neste novo mundo onde degustador de H2O virou profissão, uma empresa americana com base na Tasmânia (Austrália) lançou uma versão levemente gasosa, vinda da chuva. Segundo a compania, está provado cientificamente que essa região tem o ar mais puro do mundo. Dizem os especialistas que suas bolinhas são mais suaves que as da italiana San Pelegrino. Para fazer frente aos ambientalistas que pregam o fim do consumo de água engarrafada, a empresa anuncia que suas embalagens de vidro são todas recicladas.
Add comment Setembro 25, 2007
Guapisima
Hoje acordei meio de mau humor e saí a passear para buscar pautas para o blog. Fui direto para a Calle Avinyo, uma das mais hypes de Barcelona. Logo depois de sair da Adidas Original ainda mais deprimida porque meu orçamento não me permitia comprar o indescritível tênis estampado, um senhor de no mínimo setenta anos se aproximou de mim. Parei achando que ele queria perguntar as horas ou onde ficava alguma rua. Ele me olhou nos olhos e disse “Estás guapisima, nena” (Está linda, neném, em tradução livre). Imediatamente, virei o rosto, em tom de ofendida. Mas na verdade, ele me salvou o dia.
Segui o meu caminho me achando realmente linda. Daí, me surgiu uma pergunta: por que fingimos que nos ofendemos quando adoramos as cantadas da rua? Para posar de boa moça? Por que não lhe agradeci ou respondi que ele também era muito charmoso? Tá bem que há diferenças entre um “guapisima” e um “vem cá, cachorra” ou um libidinoso “gostosa”. Mas a verdade é que gostamos de todos, ou não?
4 comments Setembro 19, 2007
Art toys de crochet
Os famosos bonequinhos de design que viraram moda de uns anos para cá saíram das prateleiras dos colecionadores para as roupas das meninas. A mania começou com a empresa novaiorquina Crochet Accessory, onde todos os bichinhos de crochê são feitos à mão. Podem ser usados onde a
criativiade do dono mandar: blusa, vestido, cachecol, bolsa, chaveiro e muito mais. Em edições superexclusivas, chegam a custar quase 60 dólares.
Como na
moda tudo se copia, outras versões se espalharam mundo afora. Aqui na Espanha, até a popular Zara vende vestidos com os bonequinhos artesanais. Eu mesmo já garimpei o meu com um urso muito fofo. No Brasil, as meninas têm a vida ainda mais fácil. É só escolher um modelo e pedir para a vovó copiar.
3 comments Setembro 18, 2007
I’m not a plastic bag
Quando cheguei à Espanha, estranhei muito que a maioria dos supermercados cobrasse pelas bolsas plásticas. É verdade que são mais resistentes que as oferecidas gratuitamente e em abundância nos mercados brasileiros, mas me parecia uma muquiranice sem tamanho. Também via gente levando sua própria bolsa de casa e isso me horripilava ainda mais. “Que mãos de vaca”, pensava.
Depois de um tempo, entendi que era uma atitude ecológica. As bolsas eram mais resistentes para que durassem mais e pudessem ser reaproveitadas cada vez que se fosse de compras. Aqui, é comum as lojas perguntarem se você quer uma bolsa. Na hora de fazer uma troca, a que você leva é aproveitada em vez de parar no lixo. Tudo em nome do meio ambiente.
Com a proposta de ser uma embaixatriz da causa, a designer inglesa Anya Hindmarch lançou a charmosa “I’m not a plastic bag” (Eu não sou uma bolsa plástica). Pelo módico preço de 5 libras, se esgotou imediatamente, já que era uma edição superlimitada. A revista Vanity Fair distribuiu algumas para que ultra-VIPs fizessem propaganda. Vários já foram fotogrados com a bolsa, como a atriz Keira Knightley.
Hoje, para comprar pelo site da estilista, só recebendo um convite da própria. Em compensação, no Ebay tem aos montes. Isso sim, por no mínimo 180 dólares.
2 comments Setembro 18, 2007
Contrata un personal stylist
Promovida do My Space às paradas de sucesso de todo mundo, Lily Allen aparece pela primeira vez numa lista de “Desce”. A culpa? Suas horrendas combinações de roupas. Até a revista inglesa Cuore classificou a cantora como a artista mais malvestida do Reino Unido por “suas combinaçoes de cores e por não trocar os sapatos”.
Ela nem liga e até assinou uma coleção da loja inglesa “New Look” chamada “The Allen style”.
O vestidinho verde aí da foto Lily usou na entrega do prêmio Brit Awards, onde ela também foi reprovada.
Add comment Setembro 18, 2007
Babel
O Big Brother espanhol, que começou semana passada, é o reflexo da miscigenação cultural que vive a Espanha. Na edição anterior, uma brasileira – Naiala – levou o grande prêmio. O “Gran Hermano” atual, nona exibição do programa, parace ir na mesma direção. Entre os concursantes, há três estrangeiros residentes na Espanha: um senegalês, um marroquino e um italiano.
A Espanha é hoje o país que mais recebe imigrantes da União Européia. Vivem aqui mais de 1,3 milhão de estrangeiros, com influência clara na cultura local. Em Barcelona, os comerciantes tradicionais protestam contra as lojas chinesas, que vendem tudo por sessenta centavos. No Raval, bairro barcelonês com 55% de estrangeiros, a cada mês fecha uma loja e abre uma mesquita. Por toda a cidade, os minimercados pertencem aos paquistaneses, chamados simplesmente de “pakis”. Como uma sociedade nunca é uma coisa só, eu noto uma mistura de tolerância com discriminação. Na mesma proporção.
De volta ao BBB – Big Brother Babel -, Andalle, o senegalês, é muçulmano e tenta explicar aos companheiros por que no seu país ninguém namora. Até agora não conseguiu, assim como ainda gera estranheza quando reza várias vezes ao dia. Num claro sinal de racismo, foi eliminado na primeira semana, mas ainda continua no programa. Foi parar num tal limbo, esperando uma oportunidade de voltar à casa. Piero, o italino, também foi expulso, e divide a suíte dos expulsados com Andalle. Mohamed, o marroquino, ainda não disse a que veio. Ele mora na ilha de Ceuta, de nacionalidade espanhola, mas cultura de árabe.
E como a polêmica aqui é coisa séria, a única modelo do Gran Hermano é uma transexual de 18 anos – Amor. Diz que que quer usar o dinheiro para fazer a operação de mudança de sexo, mas não acredito que dure muito na casa. É constantemente criticada por dar amor em excesso. Ninguém notou ainda que se trata de um travesti, mas está no paredão desta semana. Seu queridinho na casa é Rodrigo, um militar que serviu ao Marines americano no Iraque. Está rolando um clima forte.
Eu, que tinha me desconectado da <<tele-basura>>, voltei a ver. Ai, meu Deus.
Add comment Setembro 18, 2007