Archive for Setembro, 2007
Tolerância zero

As políticas de ordem pública nem sempre vão em favor da sociedade, e muitas vezes chegam a enterrar ícones de uma cidade. Este ano em Barcelona, duas iniciativas de “tolerância zero” geraram protestos por todos os cantos. A primeira frente de ataques foi contra os músicos de ruas, uma tradição local. Além do banquinho e o violão, os artistas devem carregar um certificado de autorização, além de respeitar os horários estabelecidos. Uma contradição à cultura urbana. Em entrevista recente à revista Mondo Sonoro, o músico Manu Chao, arredio a qualquer tipo de convenção, se disse desapontado com Barcelona, cidade onde mora atualmente. Com planos de se mudar para Istambul, criticou a cara-de-pau da prefeitura, que ao mesmo tempo em que usa “o som de Barcelona” com estratégia de marketing para atrair mais turistas, tenta calar os músicos, sufocando-os com normas.

A segunda política contraditória golpeou os ciclistas. Na contramão do lançamento das “bicings“, bicicletas públicas que se espalharam pela Europa, a prefeitura decidiu adotar mão dura contra as infrações de trânsito. Não as cometidas pelos poluentes carros e sim contra os condutores em duas rodas. Entre outras regras, está proibido acorrentar as bicicletas em árvores – pese a ter pouquíssimos pontos de estacionamento na cidade – ou andar em calçadas de menos de 5 metros de largura. Os ciclistas estarão sujeitos a multas de no mínimo 30 euros e já foram às ruas anunciar “que não são o problema do trânsito e sim a solução”. Não foram ouvidos. Semana passada, fui advertida pela Guarda Urbana por andar na ciclovia ouvindo meu Ipod. <<Cidadã, isso é um veículo>>, gritou depois de soar as sirenes.
As fotos deste post fazem parte de um ensaio do fotógrafo João Gaudenzi, publicado na edição deste mês da revista TOP, de Curitiba.
Add comment Setembro 25, 2007
Chuva engarrafada
Aprendemos na escola que a água é “insípida, inodora e incolor”, mas já faz tempo que descobrimos que não é bem assim. Tem água com menos sódio, mais cálcio, menos magnésio, mais salgada, ou mesmo de alta ou baixa montanha. Os restaurantes mais sofisticados já oferecem uma carta de água, semelhante às de vinho. Neste novo mundo onde degustador de H2O virou profissão, uma empresa americana com base na Tasmânia (Austrália) lançou uma versão levemente gasosa, vinda da chuva. Segundo a compania, está provado cientificamente que essa região tem o ar mais puro do mundo. Dizem os especialistas que suas bolinhas são mais suaves que as da italiana San Pelegrino. Para fazer frente aos ambientalistas que pregam o fim do consumo de água engarrafada, a empresa anuncia que suas embalagens de vidro são todas recicladas.
Add comment Setembro 25, 2007
Guapisima
Hoje acordei meio de mau humor e saí a passear para buscar pautas para o blog. Fui direto para a Calle Avinyo, uma das mais hypes de Barcelona. Logo depois de sair da Adidas Original ainda mais deprimida porque meu orçamento não me permitia comprar o indescritível tênis estampado, um senhor de no mínimo setenta anos se aproximou de mim. Parei achando que ele queria perguntar as horas ou onde ficava alguma rua. Ele me olhou nos olhos e disse “Estás guapisima, nena” (Está linda, neném, em tradução livre). Imediatamente, virei o rosto, em tom de ofendida. Mas na verdade, ele me salvou o dia.
Segui o meu caminho me achando realmente linda. Daí, me surgiu uma pergunta: por que fingimos que nos ofendemos quando adoramos as cantadas da rua? Para posar de boa moça? Por que não lhe agradeci ou respondi que ele também era muito charmoso? Tá bem que há diferenças entre um “guapisima” e um “vem cá, cachorra” ou um libidinoso “gostosa”. Mas a verdade é que gostamos de todos, ou não?
4 comments Setembro 19, 2007
Art toys de crochet
Os famosos bonequinhos de design que viraram moda de uns anos para cá saíram das prateleiras dos colecionadores para as roupas das meninas. A mania começou com a empresa novaiorquina Crochet Accessory, onde todos os bichinhos de crochê são feitos à mão. Podem ser usados onde a
criativiade do dono mandar: blusa, vestido, cachecol, bolsa, chaveiro e muito mais. Em edições superexclusivas, chegam a custar quase 60 dólares.
Como na
moda tudo se copia, outras versões se espalharam mundo afora. Aqui na Espanha, até a popular Zara vende vestidos com os bonequinhos artesanais. Eu mesmo já garimpei o meu com um urso muito fofo. No Brasil, as meninas têm a vida ainda mais fácil. É só escolher um modelo e pedir para a vovó copiar.
3 comments Setembro 18, 2007
I’m not a plastic bag
Quando cheguei à Espanha, estranhei muito que a maioria dos supermercados cobrasse pelas bolsas plásticas. É verdade que são mais resistentes que as oferecidas gratuitamente e em abundância nos mercados brasileiros, mas me parecia uma muquiranice sem tamanho. Também via gente levando sua própria bolsa de casa e isso me horripilava ainda mais. “Que mãos de vaca”, pensava.
Depois de um tempo, entendi que era uma atitude ecológica. As bolsas eram mais resistentes para que durassem mais e pudessem ser reaproveitadas cada vez que se fosse de compras. Aqui, é comum as lojas perguntarem se você quer uma bolsa. Na hora de fazer uma troca, a que você leva é aproveitada em vez de parar no lixo. Tudo em nome do meio ambiente.
Com a proposta de ser uma embaixatriz da causa, a designer inglesa Anya Hindmarch lançou a charmosa “I’m not a plastic bag” (Eu não sou uma bolsa plástica). Pelo módico preço de 5 libras, se esgotou imediatamente, já que era uma edição superlimitada. A revista Vanity Fair distribuiu algumas para que ultra-VIPs fizessem propaganda. Vários já foram fotogrados com a bolsa, como a atriz Keira Knightley.
Hoje, para comprar pelo site da estilista, só recebendo um convite da própria. Em compensação, no Ebay tem aos montes. Isso sim, por no mínimo 180 dólares.
2 comments Setembro 18, 2007
Contrata un personal stylist
Promovida do My Space às paradas de sucesso de todo mundo, Lily Allen aparece pela primeira vez numa lista de “Desce”. A culpa? Suas horrendas combinações de roupas. Até a revista inglesa Cuore classificou a cantora como a artista mais malvestida do Reino Unido por “suas combinaçoes de cores e por não trocar os sapatos”.
Ela nem liga e até assinou uma coleção da loja inglesa “New Look” chamada “The Allen style”.
O vestidinho verde aí da foto Lily usou na entrega do prêmio Brit Awards, onde ela também foi reprovada.
Add comment Setembro 18, 2007
Babel
O Big Brother espanhol, que começou semana passada, é o reflexo da miscigenação cultural que vive a Espanha. Na edição anterior, uma brasileira – Naiala – levou o grande prêmio. O “Gran Hermano” atual, nona exibição do programa, parace ir na mesma direção. Entre os concursantes, há três estrangeiros residentes na Espanha: um senegalês, um marroquino e um italiano.
A Espanha é hoje o país que mais recebe imigrantes da União Européia. Vivem aqui mais de 1,3 milhão de estrangeiros, com influência clara na cultura local. Em Barcelona, os comerciantes tradicionais protestam contra as lojas chinesas, que vendem tudo por sessenta centavos. No Raval, bairro barcelonês com 55% de estrangeiros, a cada mês fecha uma loja e abre uma mesquita. Por toda a cidade, os minimercados pertencem aos paquistaneses, chamados simplesmente de “pakis”. Como uma sociedade nunca é uma coisa só, eu noto uma mistura de tolerância com discriminação. Na mesma proporção.
De volta ao BBB – Big Brother Babel -, Andalle, o senegalês, é muçulmano e tenta explicar aos companheiros por que no seu país ninguém namora. Até agora não conseguiu, assim como ainda gera estranheza quando reza várias vezes ao dia. Num claro sinal de racismo, foi eliminado na primeira semana, mas ainda continua no programa. Foi parar num tal limbo, esperando uma oportunidade de voltar à casa. Piero, o italino, também foi expulso, e divide a suíte dos expulsados com Andalle. Mohamed, o marroquino, ainda não disse a que veio. Ele mora na ilha de Ceuta, de nacionalidade espanhola, mas cultura de árabe.
E como a polêmica aqui é coisa séria, a única modelo do Gran Hermano é uma transexual de 18 anos – Amor. Diz que que quer usar o dinheiro para fazer a operação de mudança de sexo, mas não acredito que dure muito na casa. É constantemente criticada por dar amor em excesso. Ninguém notou ainda que se trata de um travesti, mas está no paredão desta semana. Seu queridinho na casa é Rodrigo, um militar que serviu ao Marines americano no Iraque. Está rolando um clima forte.
Eu, que tinha me desconectado da <<tele-basura>>, voltei a ver. Ai, meu Deus.
Add comment Setembro 18, 2007
Balas contra o mau humor

Em princípio parece mais uma loja de balas. Mas sua vitrine dá uma pista de que tem algo mais:
Indicações: contra as segundas-feiras, a dieta do abacaxi, os domingos sem futebol, o aquecimento global, as máquinas de lavar que estragam sem avisar, os dias cinzas, as raízes quadradas, a insuportável leveza do ser, os cachos rebeldes sem causa, as chaves que se perdem sozinhas, o preço dos apartamentos em geral e o tédio em particular.
Posologia: consumir alegremente.
A Happy Pills é uma pequena loja numa rua de pedestres, bem no centro de Barcelona. Com um marketing muito particular e divertido, converteu a bala de toda a vida em um remédio para todo tipo de mal. Aí, os doces não são coisa de criança nem geram culpa. São uma solução para os problemas de adulto. As balinhas coloridas vêm em potinhos de plásticos que imitam os de remédio, e você pode escolher a etiqueta que mais agrade, entre as indicações disponíveis. Comprei uma contra os preços dos apartamentos que me alegrou o dia.
Endereço: Carrer de Arcs, 6.
Add comment Setembro 14, 2007
O tempo e a previsibilidade espanhola
Sempre me chamou a atenção como os comportamentos aqui na Espanha são previsíveis. A massa anda em bloco, sempre numa mesma direção. Tudo se pauta pelas estações do ano. Agosto, alto verão, é o mês das férias. As lojas fecham, as praias lotam, tudo fica mais caro, e ainda asim todo mundo viaja este mês. Não importa que em junho e julho também faça calor e as crianças já não tenham aula, a hora de viajar é agosto e ponto final. Ninguém questiona isso.
Com a volta ao trabalho, setembro é o mês da depressão, numa síndrome que já foi classificada como “pós-ferias”. Aumentam as baixas médicas, a produtividade reduz e o mau humor espanhol, chamado aqui de <<mala-leche>>, se torna quase insuportável. Tudo em bloco. Sempre previsível.
Para escapar da tristeza, chega a temporada de redecorar a casa e prepará-la para o Natal. As ruas se enchem de móveis usados e, oportunamente, o Ikea lança um novo catálogo. O Ikea é uma megaempresa sueca de móveis e decoração com lojas por quase todo o mundo. Seu catálogo é a publicação com maior tiragem anual- 175 milhões de exemplares. Supera até a Bíblia. A estretágia é infalível: as vendas já aumentaram 30%.
Passado o Natal, começa a segunda onda de depressão, causada pelo inverno. Mas isso só posso contar quando chegar a hora.
Add comment Setembro 12, 2007
Pijo-favela
“Fave-rave” é o nome do som que o DJ Diplo propõe para substituir o novíssimo “nu-rave”, diz a revista de tendências H Magazine. Até aí tudo de bom. Toda projeção internacional da música brasileira é bem-vinda. Eu, particularmente, acredito que o funk é a representação mais autêntica da cultura carioca, com tudo o que a palavra “cultura” significa. O problema é como a coisa está sendo “empacotada” para o mercado europeu e americano. O representante escolhido pelo prestigiado DJ foi o trio curitibano “Bonde do Rolê”, criado a mais de 800Km das favelas cariocas.
Na edição desse mês da revista, a apresentação de uma entrevista com o DJ é a seguinte:
“É sujo, luxuoso, lascivo e pornográfico (…) Mas não se preocupe que você não terá que sujar seus sapatinhos de cristal de sange, suor e esperma para dançá-lo. Diplo viaja regularmente às favelas, recolhe o melhor, limpa (…) e divide em pedacinhos para que você possa tragar sem engasgar e dançar como o Ocidente manda o favela funk.”
Em seguida, o repórter pergunta a Diplo se ele não considera o que faz “pijo-favela”. Pijo é a palavra espanhola para mauricinho/patricinha. O DJ concorda e diz que seria impossível levar aos seus shows o que realmente acontece nos morros cariocas. Diplo agora prepara um filme sobre suas experiências. Isso sim, sem mostrar nenhuma arma.
Add comment Setembro 9, 2007